Kilimanjaro

Gostamos muito da calma do mar, mas gostamos ainda mais de aventura e desafios. Como escuteiros que somos, trekkings são a nossa praia. Estávamos na Tanzânia, país que alberga a montanha mais alta de África e, entre um Hugo louco e decidido e uma Joana mais cética e ponderada, rapidamente percebemos que não podíamos deixar um continente que tanto nos marcou sem o admirar uma última vez, desta vez, de uma perspetiva diferente.

O Kilimanjaro é uma montanha mágica. 5895 metros vulcânicos acima das grandes planícies secas da savana, este gigante adormecido teima em mostrar a cabeça brilhante acima das nuvens. Se o seu vulcão está extinto, o Kilimanjaro guarda ainda a natureza bruta, as marcas de todos os tempos que passaram e as paisagens mais inacreditáveis que alguém pode testemunhar. Para resumir, subir ao “Roof of Africa” foi para nós uma das experiências a dois mais marcantes e desafiantes de sempre.

Embarcámos nesta aventura com o Fabien, um jovem Alemão, estudante de Medicina que estava a fazer um estágio em Moshi e que tal como nós não quis deixar o país sem o admirar lá de cima.

Preparação:

  • Escolher o Operador Turístico: escolhe uma agência que tenha várias e boas reviews no Trip Advisor e que não seja demasiado barata em relação às outras. Garante que ela é membro da KIATO (Kilimanjaro Association of Tour Operators), um selo de qualidade e garantia de boas práticas.

Escolhemos a Gazelle Adventures, empresa local e um pouco mais barata que muitas outras. São um pouco desorganizados na pré-subida, no que toca a aluguer de material e a impor-te programas turísticos fora do pacote nos dias anteriores à subida. No entanto, fazem tudo o que podem para te satisfazer e lá em cima são mestres. Os guias Crispin e Martin, são simplesmente top, uma dupla de experiência e jovialidade, sabem o que estão a fazer e estão lá para ti, a todo o momento, para o que for preciso. Isso vale ouro, acredita. Vais querer subir com alguém em quem sintas que podes confiar.

Esta não é uma aventura barata. Um turista não faz uma expedição segura ao Kilimanjaro por menos de 1500€. Parece muito, mas se fores fazer as contas a quantas pessoas têm de subir contigo e aos recursos necessários para tal acontecer ao longo de uma semana, rapidamente percebes que não é caro. (Para 3 pessoas subirem a montanha como era o nosso caso, têm que ir uma equipa de 11 pessoas: 2 guias, 1 cozinheiro e 8 porters).

  • Seguro de Saúde: para trekking acima dos 4500m. É a única forma de teres garantida uma operação de busca e salvamento por via aérea em caso de emergência médica durante toda a subida. Caso contrário, a evacuação só poderá ser feita por via terrestre, o que demora o seu tempo.

Como o nosso seguro de viagem não cobria estas especificidades, recorremos à World Nomads. Podes fazer um seguro com eles só para o tempo da subida e que tenha cobertura específica para altitudes extremas.

  • Preparação Física e Mental: Obviamente que é importante ter as condições físicas e médicas ideais para te lançares numa aventura deste género, mas é, em grande parte, o foco mental que te leva lá acima.

Hoje em dia, aproximadamente 30 000 pessoas por ano tentam subir ao topo do Kilimanjaro. A taxa de sucesso para o Uhuru Peak é de 65%. Por ano, cerca de 10 pessoas morrem na montanha.

Não há dúvidas de que é preciso ter determinação e autoconfiança. Como dizia o Martin: “ You need to stay positive and go straight to the top!”. É este conselho primário mas difícil de aplicar que te leva lá acima. Este mind-set é valido desde o dia anterior à subida até ao último metro, e torna-se gradualmente mais importante.

A nossa preparação foi muito mais mental do que física. Não fizemos um plano de preparação física, mas sabíamos que tínhamos a condição mínima necessária para o que íamos fazer. Os 6 meses de missão em Moçambique deram-nos um dia-a-dia de grande atividade, entre caminhar bastante e os vários trabalhos diários (pintar paredes, semear e colher na machamba, mexer panelões de chima, carregar, pregar… debaixo de um calor imenso, é um ginásio que nem vos passa!). Quanto à parte mental, procurámos encontrar em conjunto os verdadeiros porquês do que queríamos fazer. Experiência de vida, superação pessoal, cumprir sonho de infância, retirar aprendizagens…deu para tudo e mais algumas lições que não estavam previstas.

  • Escolher a Rota e definir a sua duração: Há 7 rotas possíveis. Todas elas diferentes. O que varia é a sua duração de percurso (número de dias mínimo ou recomendável), dificuldade técnica, tipo de paisagem, por que lado da montanha inicia e a quantidade de climbers que tem. Consoante aquilo que cada um procura ou acha que consegue fazer, e também dependendo da época do ano, uma das rotas será a ideal. Aqui fica uma impressão geral das rotas:
  1. Rota Marangu: a mais antiga, a única que oferece acomodação em cabana, menor variedade cénica (subida e descida pelo mesmo caminho), muito tráfego, relativamente fácil;
  2. Rota Machame: a mais popular, muito tráfego, moderadamente difícil;
  3. Rota Rongai: paisagens variadas (subida e descida por caminhos diferentes), pouco tráfego, moderadamente difícil, começa pelo lado Norte da montanha;
  4. Rota Shira: a única que permite ir até determinada altitude de jipe;
  5. Rota Lemosho: das mais recentes, a mais bonita, pouco tráfego;
  6. Rota Umbwe: a mais difícil;
  7. Circuito do Norte: a rota mais longa, paisagens variadas, pouco tráfego;

A rota que escolhemos foi a Rongai. Porquê? Fomos em Novembro, época das pequenas chuvas. Esta é a única rota que entra pelo lado Norte da montanha, o lado mais seco, o que permitiu evitar não só a chuva, mas também algum frio. Por outro lado, apesar de ser uma rota longa, é tecnicamente acessível, silenciosa (menos trekkers) e tem um conteúdo paisagístico riquíssimo. A escolha foi boa. Apanhámos um clima maravilhoso e adorámos o caminho. Escolhemos fazê-la em 7 dias. 3 dias de subida, 1 dia de aclimatização extra para aumentar as nossas probabilidades de sucesso, 1 dia para o summit, e 2 dias para a descida.

  • Material: podes alugar o material necessário para a subida em lojas locais. Há muitas, e quase todas terão tudo o que te faltar. Como não vínhamos de casa, não tínhamos praticamente nada, pelo que alugámos quase tudo. Aqui fica uma lista do material essencial para subir:
  • 1 duffel bag (é a mala obrigatória onde vai toda a tua roupa e material. É carregada pelos porters que vão à tua frente a uma velocidade que não consegues, nem deves acompanhar!);
  • 1 mochila pequena (20 a 30 litros) (é a mochila que levas às costas com o material mais importante para a caminhada do dia-a-dia (água, snacks, protetor solar, máquina fotográfica, casaco e calças impermeáveis e roupa quente extra);
  • 1 casaco “de neve”;
  • 1 casaco impermeável/poncho;
  • 1 polar;
  • 2 a 3 camisolas térmicas;
  • Várias t-shirts;
  • 1 calças “de neve”;
  • 1 calças impermeáveis;
  • 1 calças de caminhada;
  • 2 a 3 calças térmicas;
  • 2 calções;
  • Várias meias de caminhada;
  • Botas de caminhada à prova de água;
  • Ténis de caminhada;
  • 1 par de sticks de caminhada;
  • Gorro;
  • Chapéu de sol;
  • Balaclava;
  • Luvas;
  • Roupa interior;
  • 1 saco-cama (deve ser apropriado para baixas temperaturas. Se fores muito friorento/a como a Joana leva um forro polar para por dentro do saco-cama);
  • 2 cantis de 1.5 litros (1 térmico para o dia do cume);
  • Lanterna de cabeça e pilhas extra;
  • Óculos escuros;
  • Toalha;
  • Kit básico de higiene (não te esqueças de dodots, são uma salvação no meio de tantos dias de exercício físico sem banho!);
  • Protetor solar e batom do cieiro solar;
  • Snacks energéticos (frutos secos, barrinhas energéticas, etc.);

Toda a tua roupa deve ir bem acondicionada em sacos de plástico para se manter seca.

Ter o material certo é imprescindível para uma subida em segurança. Não te esqueças que as mudanças de temperatura são grandes, especialmente entre dia e noite. No início está mais quente e à medida que vais subindo começa a ficar frio a sério. No cume experimentámos cerca de -15ºC. Além disso as mudanças de clima são imprevisíveis, num instante o sol e calor se transformam em vento, nevoeiro, chuva e frio.

  • Farmácia: Levámos a nossa farmácia de viagem (podes consultá-la neste post: https://penumundo.blog/2019/07/09/partir/).
  • Trekking de aclimatização: No dia anterior à subida fomos até à Materuni Waterfall acompanhados de um dos nossos guias. É claro que eles aproveitam para te vender todo um programa com visita a produtores locais de café, almoço, etc. Se não quiseres gastar mais dinheiro, tenta evitar os extras ao máximo, mas não deixes de fazer o trekking de cerca de 3 horas. Sentimos que foi essencial para ativar os músculos e procurar logo uma altitude considerável antes da subida.
  • Gorjetas: No fim da descida e depois da festa fazem-se as contas às gorjetas . Esta é uma prática comum e já obrigatória em subidas ao Kilimanjaro. São contas à parte do operador turístico, independentemente de qual seja. O mínimo razoável são 200 dólares por alpinista, e 250 dólares já é considerada uma boa tip. Normalmente, esse valor deverá ser distribuído através do guia principal a toda a equipa.

Subida:

“Pole Pole”. Esta é a expressão swahili mais conhecida entre os turistas que sobem o Kilimanjaro, mas quem a eterniza são os próprios tanzanianos. Significa “devagar, devagar”. É isso que se ouve da boca dos guias a toda a hora, é isso que começas a repetir para dentro à medida que sobes e é isso que te leva lá acima. Subir devagar, devagarinho tem várias vantagens. Não desgastas o corpo estupidamente (vais precisar de toda a tua energia, acredita), permites que o teu corpo se acostume à altitude e dás-te tempo para apreciar os silêncios da montanha e contemplar tamanha beleza. Além de subir devagar, beber muita água, comer bem e descansar durante a noite são bons aliados para uma subida de sucesso.

 A questão da altitude é mesmo uma questão. Não a descures, mas também não penses demasiado nela, nem entres em paranóia, até porque não consegues prever nem controlar a 100% como vais reagir. A suscetibilidade aos sintomas da altitude é aleatória. Cada um sentirá os efeitos da altitude à sua maneira e em dimensões diferentes. Estar em ótima forma física não quer dizer que estejas a salvo e os homens parecem ter maior probabilidade de desenvolverem sintomas, principalmente os jovens, pois tendem a querer subir mais rápido e a menosprezar os sintomas. Ainda assim, há algumas coisas que deves saber de antemão para conseguires ir gerindo a subida de forma inteligente e responsável.

A altitude define-se da seguinte forma:

  • Alta altitude: 1500 a 3500 m;
  • Altitude muito alta: 3500 a 5500 m;
  • Altitude extrema: acima de 5500 m (Uhuru Peak);

A Doença da Altitude pode ocorrer quando se sobe rapidamente a uma altitude elevada sem aclimatização suficiente. Pode manifestar-se de 3 formas diferentes:

  1. AMS (Acute Montain Sickness) – Sintomas: dores de cabeça, perda de apetite, náuseas, vómitos, insónia, fadiga e tonturas. Alguns destes sintomas são comuns numa subida ao Kilimanjaro e numa escala controlada não apresentam problema.
  2. HAPE (High Altitude Pulmonary Edema) – Caracterizada por acumulação de líquido nos pulmões. Sintomas: falta de ar extrema mesmo em repouso, respiração ofegante, tosse, lábios e unhas azulados.
  3. HACE (High Altitude Cerebral Edema) – Caracterizada por acumulação de líquido no cérebro. Sintomas: falta de coordenação, incapacidade em andar em linha reta, confusão, comportamentos irracionais e normalmente não se reconhece os sintomas.

Tanto o HAPE como o HACE são potencialmente fatais e nesses casos a descida deve ser imediata, mas ambos são raros de ocorrer numa subida planeada.

Mais importante do que a altitude propriamente dita é a rapidez com que atinges determinada altitude. O nosso organismo, em condições normais, reage positivamente a menores concentrações de oxigénio, no entanto, precisa de tempo para se adaptar. Os sintomas da doença de altitude geralmente levam 1 a 2 dias para desaparecer e se continuares a subir eles podem não desaparecer. É importante manter uma comunicação honesta e fluida com os guias acerca do que estás a sentir. Ir monitorizando os sintomas para que eles não evoluam é essencial. Eles, melhor que ninguém, vão saber aconselhar-te e zelar pela tua saúde. Todas as noites avalia-se o nível de oxigénio no sangue e a frequência cardíaca para ver como o corpo está a reagir à altitude. Preenche-se também uma grelha de avaliação de sintomas para controlar exatamente esta Doença da Altitude.

Na subida, nenhum dia é igual ao outro. No Kilimanjaro tudo muda a toda a hora: a inclinação varia aleatoriamente, o clima altera-se rapidamente, a vegetação vai ficando mais rasa à medida que sobes. Isto quer dizer que do sopé ao cume vais passar por vários habitats totalmente diferentes, o que é extraordinário.

Mas agora, chega de teorias. Sigam-nos!

Dia 1

Rongai Gate – Simba Camp

Elevação: 2364 m – 2671 m

Caminhada: 3 horas – 7 km

Habitat: Floresta

Este é um dia agradável de trekking. O piso é pouco inclinado e o verde domina a paisagem de pinheiros centenários, vegetação densa e vida selvagem. Chegámos ao primeiro campo.

Nesta rota dormes em tendas, e as casas de banho são buracos no chão. À chegada tens sempre um alguidar com água para lavar os pés. Banho não é uma realidade.

Dia 2

Simba Camp – Kikelelwa Camp

Elevação: 2671 m – 3600 m

Caminhada: 6 horas – 18 km

Habitat: Moorland (vegetação rasteira)

Pela primeira vez, sente-se alguma dificuldade em respirar e pressão na cabeça, mas nada de mais. A paisagem começa a abrir e o tamanho das árvores vai diminuindo até entrarmos no que se chama a moorland que se caracteriza por grandes extensões de arbustos e vegetação rasteira.  Ao chegar ao Kikelelwa Camp pode dizer-se que estamos oficialmente em alta montanha, até porque já está bem mais frio! É claro que ao fim deste dia já se sentem as primeiras dores musculares, mas estamos animados e sentimos que estamos a progredir bem. Se isto for sempre assim, chegamos lá acima! Mas será sempre assim?

Dia 3

Kikelelwa Camp – Mawenzi Tarn Hut

Elevação: 3600 m – 4315 m

Caminhada: 3 horas – 9 km

Habitat: Moorland

Pois é, dormir na alta montanha não é o mesmo que dormir na altitude a que estamos habituados. A verdade é que fomos acordando várias vezes durante a noite, sonhámos sobressaltados com búfalos e aviões suicidas e acordámos nauseados, com a cabeça pesada, como se tivéssemos ido sair à noite e bebido descontroladamente até amanhecer. A Joana teve as primeiras dores de barriga e vomitou.

Começámos a caminhar devagar e os sintomas foram melhorando. A caminhada deste dia não foi longa mas teve uma inclinação considerável o que quer dizer que subimos bastante. Chegámos à Mawenzi Tarn Hut pela hora de almoço já mais animados e a sentirmo-nos prontos para enfrentar o que restava da montanha. À tarde fizemos o que se chama de caminhada de aclimatização, seguindo a regra do “walk high, sleep low”. Foi nesta caminhada que o Hugo sentiu as primeiras enxaquecas. Por esta altura já é preciso respirar fundo para respirar normalmente. É possível sentir algumas tonturas também. Mas sabem que mais? Já estamos nas nuvens! Literalmente! E aqui o clima começa a ficar totalmente impossível de adivinhar. Ora está sol, ora cobre completamente e fica vento e muito frio.

Dia 4

Mawenzi Tarn Hut – Kibo Hut

Elevação: 4315 m – 4720 m

Caminhada: 4 horas – 14 km

Habitat: Deserto Alpino

Uma paisagem ímpar. Dos caminhos que achámos mais bonitos. Marte deve ser mais ou menos como o deserto alpino. Seco, avermelhado e aparentemente infinito. O sol sentia-se perto. A Joana sentiu umas ligeiras dores de cabeça e uma pressão nos olhos. Já ao Hugo, as enxaquecas e os vómitos atacaram em força. O guias estavam vigilantes ao grupo mas diziam que estes sintomas faziam parte do processo de aclimatização e motivavam com humor. Era importante avaliar como nos sentíamos durante a caminhada e ter em conta os resultados das avaliações de oxigénio e frequência cardíaca. “Good? You’re sure? Let’s go!” Este foi um dia árduo, mas conseguimos chegar ao Kibo Hut, onde tantas rotas se encontram antes de se lançarem à noite do pico.

Agora sabíamos que tínhamos uma decisão importante a tomar: quando “atacar” o cume? Subimos hoje de madrugada mais cansados e com os sintomas que temos ou tentamos amanhã, mais descansados, mas arriscando que os sintomas da altitude se agravem? Os guias deixaram-nos a questão, mas tinham claramente preferência por subir o mais rápido possível.

Dormitámos e meditámos ao longo da tarde. Enquanto isso, assistíamos aos grupos que vinham já a descer a montanha. A maior parte vinham visivelmente cansados, mas sorridentes, com o rosto marcado pela felicidade da grande conquista. Duas pessoas desciam rapidamente em macas de emergência rodeados por dezenas de guias. Aqui cada um escolhe em que versão se quer focar.

Nesta fase é normal começar a perda de apetite. Por isso foi tão importante comer bem nos primeiros dias. E é neste momento que se revela a verdadeira loucura motivacional de cada um. “Crispin, Martin, esta noite subimos lá acima”. Olharam para nós e acenaram com um sorriso evidente.

Dia 5 – Summit Day

Kibo Hut – Uhuru Peak – Horombo Hut

Elevação: 4720 m – 5895 m – 3720 m

Caminhada: 13 horas – 21 km

Habitat: Deserto alpino – Ártico – Moorland

A subida é feita em noite cerrada (para não veres o caminho que te espera). Meia-noite. Os guias fizeram um double-check do material e um discurso motivacional enquanto comíamos um snack. “This is our time, guys!”. Estava um frio extremo e cada um à sua maneira sentia um nervoso miudinho. Todos sabíamos que agora era a parte mais difícil. Equipámo-nos convenientemente (sentimo-nos uns autênticos astronautas) com 6 camadas de roupa e… muito bem, aqui vamos nós. Iniciámos a subida (e agora é subir a sério!). 10 minutos depois ouve-se alguém a vomitar. Hugo! Já?! Bom começo.

Recomeçando. São 6 horas de zigue-zague pela escuridão. Estamos a 1000 metros do pico e temos uma longa madrugada de escalada pela frente. Devagar, devagarinho. A mochila de 5kg pesa 100kg, cada perna é um enorme tijolo que demora a responder às ordens que o teu cérebro envia. A inclinação é brutal e caminhas em gravilha solta e rochas com uma alta probabilidade de te despenhares. É fisicamente muito, muito intenso. É aqui que tens de estar verdadeiramente bem preparado para a ação física, e também é aqui que provas a tua força interior para acreditares que és capaz. Vais fazendo curtas paragens para não arrefecer demasiado, bebendo água e vamo-nos motivando e apoiando uns aos outros. O céu é dos mais bonitos que já vimos e à medida que subimos vamos “tocando” as estrelas.

O tempo vai passando penosamente, mas sem te aperceberes. De repente chegas ao Gilman’s Point (5685 m, no limite da orla da cratera) e nem queres acreditar. Olhas para trás, com o nariz vermelho e gelado, e vês o sol começar a nascer por entre as nuvens. É sublime. Naturalmente há abraços, sorrisos e gritos de vitória. Chegámos à cabeça de neve do Kilimanjaro, aquela que se via lá debaixo há uma semana atrás.

Depois dizem-te: “let’s go!”. Vamos onde? Ah, ainda faltam 1h30 de caminho e 200 metros de altitude. A Joana estava maravilhada e enérgica. O Hugo estava completamente “com os copos”. Mal sentia as pernas, estava zonzo e cheio de humor. Siga!

Um último esforço colossal por meio de glaciares monstruosos acima das nuvens. Cruzámos o Stella Point (5756m), sabíamos que estava quase e nem comentámos nada. Aqui há mesmo muito pouco oxigénio e cada movimento custa bastante, tal qual como nos filmes.

“Ladies and Gentlemen, THE ROOF OF AFRICA!”. Ainda hoje temos dúvidas se o que ouvimos foi verdade, se é mesmo verdade que vencemos aquela reta final com tanta neve, frio e vento. Chegámos ao Uhuru Peak, 5895 metros acima do nível do mar. Estávamos no ponto mais alto de África. Vencemos!

Uhuru = Liberdade. E Liberdade é o grande sentimento que recebes lá em cima. Tocas na placa de madeira que marca a altitude e parece impossível que o estejas a fazer. Tanto esforço depois e, chegámos. Chegámos mesmo? E agora? Estás livre, suspenso entre uma enorme alegria, o frio extremo e belíssimo de uma paisagem que nunca tinhas visto antes, e a incredulidade do que acabaste de fazer. Não, não acontece todos os dias, e nunca mais te vais esquecer. Desfrutemos, o céu nunca esteve tão perto!

No nosso dia de pico o vento estava poderoso e um frio maluco. Algumas rajadas estavam capazes de nos fazer perder o equilíbrio, e faziam. O bigode e a barba formavam pequenas estalactites. Os guias estavam claramente tensos e preocupados desde que cruzámos o Stella Point e forçaram a descida ao fim de uns 15 minutos de estarmos lá em cima. Nós obedecemos. O Fabian, o nosso companheiro de expedição, que esteve impecável até ao Gilman’s point, estava em muito mau estado (de rosto branco e lábios azulados, tremia intensamente), o Hugo ia-se arrastando perna a perna como um velhote, e a Joana continuava no Jardim da Celeste a tirar fotografias como o vento permitia. Era tempo de descer.

A descida não é tão fácil como poderá parecer. Demos muito para subir, o corpo está exausto, a mente também. Descer demora e custa nas pernas, especialmente enquanto ainda estás em alta altitude. Mas se estiveres minimamente bem, não só não há pressa para descer como quanto mais desces melhor reage o teu corpo (isto é um fenómeno impressionante!). A dada altura deslizas montanha abaixo.

É 1 dia e meio a reviver constantemente e a partilhar o que foi a vivência de cada um nos últimos 4 dias e meio e especialmente na noite de pico. Há uma certa nostalgia no ar, a comunhão de todos saberem o que cada um passou e o sentimento de orgulho no feito individual e colectivo que acabou de ser conquistado.

Dia 6

Horombo Hut – Marangu Gate

Elevação: 3720 m – 1843 m

Caminhada: 5 horas – 22 km

Habitat: Floresta

Aqui é fácil. É só descer e descer e curtir a paisagem até entrares de novo numa floresta tropical muito densa com espécies locais de macacos (o colobus e o macaco-azul) pendurados em lianas. De vez em quando ainda olhas para trás e nem acreditas que o pico que vez foi o que tu escalaste. Já sentes o organismo de volta à normalidade. A satisfação que tens em ti é tão verdadeira e a paz que levas é tão grande que de alguma forma apetece ficar mais tempo. De facto, a montanha tem destas coisas inexplicáveis no coração do homem ( e da mulher também!). Mas pronto, lá em baixo espera-te um banho quente e uma cama fofinha, estás todo partido e não tomas banho há uma semana, tens mesmo de fazer o sacrifício de descer.

Quando formos avós, vamos contar aos nossos netos o que aqui vos escrevemos. Subir o Kilimanjaro foi pura felicidade, com tudo o que ela inclui. Foi, sem dúvida, uma experiência inesquecível, que vamos guardar para sempre.

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